O maravilhoso mundo do cavalheiro da triste figura

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Cartas apaixonadas


Hoje eu vasculhei uma caixa muito importante. Nela guardo experiências que poderia ter vivido. Cartas não enviadas, livros não dados, cds plastificados. Peguei uma ao caso e comecei a leitura. Por sinal, era a mais engraçada, já que nela um dos motivos para a pessoa ser especial era que o objeto do desejo tinha lido Paulo Freire e acreditava na educação para mudar o mundo. Risos a parte, ler a carta me desagradou muito porque pude observar o modus operandi da minha visão de mundo.

Todas eram cartas apaixonadas e, em todas, havia uma exaltação da mulher amada. Do mais básico “você é linda”, passando por citações de Freud e terminando com a descrição de um futuro possível. Todas as cartas tentavam demonstrar que as pessoas que receberiam a carta seriam especiais.

Qual seria a reação de uma pessoa que recebe uma carta apaixonada? O que faz uma carta ser identificada como uma carta apaixonada? A paixão é o tema da postagem. Dom Quixote é um viciado nela.

Cartas apaixonadas fazem sucesso. Caso curioso: e-mail apaixonado não faz. A carta traz uma série de vantagens: a materialidade dela nas nossas mãos, olhar quem enviou, olhar a letra, tudo isso conta muito. Eu até colocaria no conjunto das coisas que é preciso fazer para se ter certeza que viveu uma vida produtiva (além de escrever um livro e plantar uma arvore) receber uma carta apaixonada.

A carta apaixonada, para a pessoa que recebe, é um dos momentos mais gratificantes. De certa forma, parece que em meio a toda arbitrariedade da vida moderna, uma pessoa conseguiu olhar para mim e viu aquilo que sou realmente: uma pessoa especial.

Aquele que manda a carta é um ser apaixonado. Apaixonado e iludido. Apaixonou-se pela projeção que fez do objeto desejado. Com mais ou menos criatividade, a carta apaixonada demonstra o grau de invenção que nós, seres humanos, somos capazes de fazer para obter a realização do nosso desejo. É uma condição de passividade. Estando apaixonados, o sentimento de incompletude ganha dimensões oceânicas. Freud já tinha identificado o estado específico do ser humano quando acredita estar em comunhão com os outros homens no seu Mal-estar na civilização: Supondo que há muitas pessoas em cuja vida mental esse sentimento primário do ego persistiu em maior ou menor grau, ele existiria nelas ao lado do sentimento do ego mais estrito e mais nitidamente demarcado da maturidade, como uma espécie de correspondente seu. Nesse caso, o conteúdo ideacional a ele apropriado seria exatamente o de ilimitabilidade e o de um vínculo com o universo – as mesmas idéias com que meu amigo elucidou o sentimento ‘oceânico. Não se consegue imaginar outra coisa que não o seu desejo e pensa que o seu desejo, finalmente, está materializado numa pessoa. Sendo assim, a carta apaixonada resume tudo aquilo que buscamos numa pessoa e tenta costurar transformando uma pessoa comum em uma pessoa especial.

Pessoas seriam então como as nuvens: você olha e enxerga o que quer enxergar. Você elabora mentalmente o desenho de alguma coisa e saí procurando entre as nuvens aquela que mais se assemelha a sua imagem.

O problema é que nuvens não se parecem com nada, você é que olha pra elas de acordo com o seu interesse. Um problema fácil de se conviver se não fosse por uma conseqüência que ela traz: a relativização. Várias nuvens que podem ser moldadas de acordo com o seu interesse. A nuvem que passa dá lugar a nuvem que chega e isso ocorre infinitamente. Com o tempo as nuvens são vistas apenas como um folha branca. Pessoas são vistas como uma tabula rasa que podem ser preenchidas com os valores, práticas que você desejaria encontrar numa pessoa.

Será então necessário renunciar a idéia para encontrar o valor verdadeiro de cada nuvem? Então, sei eu tivesse que elogiar uma pessoa, a coisa mais relevante que poderia ser dita que tal pessoa é uma idéia. Não conheço ninguém que gostaria de ser chamado de “idéia”...

Há uma lenda budista que exprime bem melhor a situação do que todas as palavras acima (e não saí da minha cabeça): dois monges budistas estão caminhando e encontram uma mulher muito saliente que pede ajuda para atravessar um rio. Ambos os budistas tinham feito voto de castidade, mas resolveram fazer coisas distintas: o mais novo recusou ajudar a mulher com dotes bonitos, já o mais velho não só ajudou como colocou a mulher em seus braços e atravessou a ponte.

Tendo se despedido da mulher, horas depois o jovem budista interpela seu companheiro criticando o fato dele carregar uma mulher provocante. Respondendo ao mais novo, o budista experiente pergunta: “Mas você ainda carrega a mulher em pensamento? Eu a deixei no final do rio.”

Será que a paixão e a ilusão são faces de uma mesma moeda? Seria necessário, como forma de sair da ilusão, renunciar o sentimento da paixão? Valeria a pena viver num mundo sem ela? Estaria disposto a tomar a pílula vermelha?

3 comentários

Zé da Bankai disse...

A solução do seu problema.

Assista: http://www.youtube.com/watch?v=klNjRzhsZck

Laila disse...

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Fernando Pessoa, como Álvaro de Campos

O Princípe disse...

Vai trabalhar seu vagabundo-pequeno- burguês-que-se-finge-de-romântico. Falta casa de massagem em Valença?

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